capítulo 16 - vitórias
“e
nossa história/ não estará pelo avesso assim/ pelo avesso assim/ sem final
feliz...”
2018 foi um ano especial. Uma
verdadeira montanha-russa de sentimentos, medos, desafios e... conquistas... L
estava, finalmente, no 3º ano. Mas o 3º ano do ensino médio traz uma dose extra
de angústia para todos os jovens: ENEM. No meu tempo, o vestibular causava o
mesmo frio na espinha e era, provavelmente tão estressante como nos dias de
hoje. Não fiz vestibular para universidades públicas. Precisava trabalhar,
logo, única alternativa era fazer uma faculdade à noite. Logo, não tenho como
dizer para L “sei o que você está passando...” Porque não sei.
L seguiu com sua “trava” diante de
provas. Acho que já falei antes, mas seu rendimento é diametralmente oposto ao
potencial que possui. Lembro que um dos primeiros professores do Alfa,
Professor Paulo André, de matemática (é tão estranho... os bons morrem antes...) veio
conversar comigo.
“Você
é o pai da L?”
“Sou
eu...”
“sua
filha é muito inteligente.”
“Obrigado,
professor.”
“sério.
É sim. Mas ela não sabe disso... precisamos fazê-la entender o tamanho do
potencial que tem.”
Quando ia começar a explicar o
tratamento, etc., ele abriu um sorriso:
“Sabemos
disso. E vamos ajudar. Pode contar com a gente...”
E foi algo que aconteceu nos 5 anos em
que estudou lá... teve altos e baixos, derrotas dolorosas, mas vitórias
incríveis. E, nesse ano, veio a formatura. E foi um momento “único”. Estive com
S e minha mãe... choramos, sorrimos, curtimos, nos orgulhamos (L fez uma das
leituras da noite) e pude agradecer a cada professor... óbvio que, no momento
em que encontrei a supervisora e a coordenadora, não consegui falar nada.
Apenas chorei. E foi um choro de uma alegria imensa... Essa etapa estava
superada... óbvio que, na escadaria da vida, esse foi apenas mais um degrau.
Mas... confesso... houve um momento em que cheguei a duvidar que esse dia
chegaria... E chegou...
L fez a 1ª fase da prova da UERJ
(Universidade estadual do RJ) e para 3 faculdades particulares. E havia a
inscrição para o ENEM. Como tinha passado em 2 particulares, incluindo a que eu
fizera quando jovem, pensei que fosse ser um caminho mais tranquilo. A pressão
do “tenho que passar” tinha ficado pra trás. L me perguntou se poderia estudar
à noite e trabalhar. Concordei. E disse que a decisão de esperar mais um ano,
caso não passasse no ENEM seria dela. Alias, deixei claro que, a partir de
agora, as decisões são única e exclusivamente DELA. Posso e devo aconselhar, me
intrometer, tentar fazê-la mudar de opinião, mas não posso mais decidir. 18
anos de idade... hora de caminhar.
Sabia que ela estava nervosa... também
sabia que seria difícil que ela não travasse diante do ENEM. Mas foi pior do que
eu pensei. Recebi uma ligação do fiscal da prova dizendo que ela estava
passando mal. Expliquei pro rapaz que ela poderia estar tendo uma crise de
ansiedade. Pedi para falar com ela... o de sempre: calma, respira, relaxa e
tenta. Falei que ela pdoeria se arrepender amargamente de não ter conseguido ou
pelo menos tentado fazer a prova até o final. Disse que, afinal de contas, todo
o esforço do ano inteiro, a trouxe para esse dia e que, se não passasse,
foda-se, já tinha garantido a vaga para outra faculdade. Desligou, bebeu água,
enxugou as lágrimas e tentou.
5 minutos depois
“olha. Sua filha desmaiou.”
Lá fui eu desesperado para ver o que
tinha acontecido. Logo que a vi, frágil, triste e chorando, abri um sorriso.
Olhei bem fundo nos seus olhos, fiz uma “concha” com as mãos
“está vendo minha mão? Sabe o que é
isso aqui?
“não...”
“são rugas de preocupação porque você
não fez a prova do ENEM. Eu não estou preocupado. Sua mãe não está preocupada,
JL e AC não estão preocupados, nem o Rocky está preocupado... então porque você
estaria? Deixa pra lá... Tenta outra vez e vamos em frente...”
Voltamos pra casa. L ficou chateada,
claro. Mas veio a reposta de uma outra faculdade, o meu ok para a matrícula à
noite, formatura, nosso ok para começar a trabalhar e seu rosto se iluminou.
Sobre o trabalho, confesso ter
dúvidas... L sairá de uma rotina de estudo e alguma atividade extra para 6 ou 8
horas de trabalho mais faculdade à noite? Não seria demais para quem acabou de
se livrar da depressão? Pode ser que sim... pode ser que não... sinceramente?
Não sei... optamos por arriscar. Penso que fará bem pra ela ter essa
responsabilidade toda. Mudança de fase total e irrestrita.
Perceberam a diferença? L está com
ainda mais planos para o futuro. E, nossa maior alegria veio na noite em que
entrou no nosso quarto e disse “queimei. Queimei todas...” Cada vez que fazia
planos ou realmente tentou se matar, L escrevia uma carta. E as guardou... e
disse pra si mesma que, no dia em que estive curada, as queimaria, pois não
queria ter certeza que não voltaria a acontecer. E foi agora, pouco antes do
Natal, que esse fogo consumiu os traços de desespero e tristeza que ainda a
assombravam... e preparou terreno para um ano especial que estava por vir. Um
ano que trará, certamente, lutas e batalhas. E venceremos muitas, perderemos
outras e empataremos algumas (nossa, essa foi horrível). Mas uma coisa temos
como certa: ESSE MONSTRO FOI DERROTADO!!!!!!!!!!!
Continuamos a reduzir as doses dos medicamentos... E as consultas com Dr. T, seu psiquiatra, que chegaram a ser 2 vezes por semana, hoje são a cada 2 meses. E as consultas com a psicóloga também são espaçadas... Não temos mais preocupação quando saímos e a deixamos sozinha, em casa. Tampouco quando ela pede pra ir a um shopping encontrar seus amigos. Porque realmente encontrará seus amigos...
Continuamos a reduzir as doses dos medicamentos... E as consultas com Dr. T, seu psiquiatra, que chegaram a ser 2 vezes por semana, hoje são a cada 2 meses. E as consultas com a psicóloga também são espaçadas... Não temos mais preocupação quando saímos e a deixamos sozinha, em casa. Tampouco quando ela pede pra ir a um shopping encontrar seus amigos. Porque realmente encontrará seus amigos...
E L voltou a sorrir... Assim como me
vêm à memória seu sorriso em meio às flores do jardim de uma Igreja na Barra,
vestido ao vento, seus cabelos loiros brilhando ao sol, numa época em que ela
pedia “pai, canta minha música?” “Claro, bebeja (esse sempre foi o apelido que
usava pra ela. Só não coloquei no nome do blog, porque ela me mataria)...” e
cantava
Menina
que chegou
Com
brilho de estrela
L
é seu nome
E
é pura alegria
A
cor dos seus olhos ô,ô,ô
É
pura magia
Tão
branca é sua pele
Tão
lindo o seu rosto
Se
não for pedir muito
Só
mais um sorriso
Um
beijo gostoso
E
mais um abraço
Ser
pai é ser rei ô,ô,ô
Meu
lar é meu reino
Você
minha princesa
Mamãe,
minha rainha...
Pã,
pã, pã,pã, pã, pãããã...
FIM
Que felicidade🤗🤗🤗🙌, a felicidade de vocês enche nossos corações de alegria e esperança ❤
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