Capítulo 8 - O começo do fim da fé... (continuação)
E olha que recebi, meses depois, já no Rio de Janeiro, um pastor que veio conversar conosco sobre espiritualidade e depressão. Foi trazido por um casal que amamos muito. Um casal que possui uma fé inabalável e sincera. E que também havia falado sobre minha “culpa”...Novamente veio essa conversa de que algo “espiritual” poderia estar levando L a ter todos esses sintomas e que eu, ao ver filmes de terror, poderia ter deixado uma porta aberta. E que o diabo, o "pai da mentira", teria se aproveitado dessa brecha que EU DEXEI e tinha entrado na minha casa e trazido toda essa dor. Ó... vou te dizer uma coisa: foi foda demais passar meses com mais essa culpa nos ombros. Já me sentia péssimo pelas minhas dúvidas em ter aceitado uma promoção e ter vindo pra São Paulo anos antes. Depois ficava me sentindo culpado por ter levado meus filhos de volta pro Rio, afastando-os de seus amigos. Agora, eu teria sido responsável pelo diabo da depressão (eles usaram esse termo) ter atacado minha filha. E disseram que todas as dúvidas que eu trazia comigo enfraqueciam minha relação com Deus e isso não deixava que minha filha se curasse...
Nessa altura do campeonato, tínhamos mudado de psiquiatra e percebemos que, provavelmente, a conduta do primeiro médico não foi lá muito ortodoxa, mudando de medicamentos a cada consulta, fazendo com que o cérebro da minha princesa fosse um retrato do quarto dela: tudo totalmente fora do lugar, desfigurado, sem qualquer lógica e sem chance de encontrar o que se procura. Esse novo pastor orou pela minha filha, por mim, por S, pelos meus outros filhos, orou no quarto dela. Sugeriu que ela se livrasse de algumas frases que estavam espalhadas pelo quarto (isso eu concordei) e também disse que ela estava curada.
Lembro a sensação que tive. Parecia que
uma tonelada de angústia, dor e insegurança tinham sido eliminadas naquela
noite. Dobrei os joelhos e agradeci fervorosamente a Deus por ter acabado com
nosso pesadelo. Agora sim. Recomeçaríamos nossa vida em nossa cidade natal,
perto dos parentes e amigos queridos. Nada poderia dar errado. Nada...
A não ser...
A não ser os cortes que insistiam em
deixar marcas na coxa de L e nos nossos corações. O sangue escorria pela coxa
marcada com cortes assimétricos, não profundos, o suficiente para que ela
pudesse esquecer a dor na alma e trocar pela dor física. No fundo, parece que
os pacientes buscam na automutilação o alívio da profunda solidão e angústia,
trocando o invisível pelo visível. O imaterial pelo material. O fosco e escuro
cinza da alma pelo vermelho vivo escorrendo como um riacho que caminha, meio
tímido, rumo a um rio caudaloso e cheio
de obstáculos. Que vontade de chamar aquele pastor de volta à minha casa. Que
vontade de ligar de madrugada, em meio aos gritos de desespero de L e dizer
“Seu puto! Curada onde, cara pálida? Ela continua sofrendo e sangrando em sua
alma faminta de cura e consolo...”
Mas nunca liguei. Provavelmente jamais
ligarei. Ele nem sabe que eu existo. Que minha esposa existe. Ou que minha
família ainda lute. Tivemos várias vitórias importantes. Nesse momento em que
escrevo esse trecho, comemoro que há uns noves meses L não se corta. Ainda tem
crises, chora convulsivamente e sente um vazio profundo. Mas apenas às vezes e
com uma intensidade muito menor. Não dá pra comparar o jeito que ela ficava há
quatro anos (caramba, quatro anos...) com a forma como as crises vem nesses
últimos meses. Não. Não foram os pastores neopentecostais ou da presbiteriana
ou da Batista. Foram o Dr. Prozac e Dr. Prestiq, mais o acompanhamento do
psiquiatra e da psicóloga. Não foi o Espírito Santo ou Deus. Pelo menos eu não
acredito que tenha sido. Minha esposa acredita. E respeito.
(Nota: como você, leitor, deve ter
percebido, não escrevo preocupado com a cronologia. Ok, seria mais fácil pra
você acompanhar... sei disso. Mas... conforme os fatos, pessoas e pensamentos
vão surgindo, vou colocando “no papel”. Portanto, não se assuste com a falta de
coerência nas datas... O trecho acima foi escrito em 2017)
Em janeiro de 2016 abandonei de vez a
igreja. Não foi a primeira vez que questionei minha fé. Sempre disse pra S que
“quanto mais eu lia a Bíblia, mais dúvidas eu tinha”. Fiz alguns cursos,
participava da escola dominical, trabalhava nos encontros de casais lá da
Igreja e até participava das células, pequenos grupos que se reuniam para
estudar a bíblia e algumas lições. Foram muitas as ocasiões em que minhas
dúvidas sufocavam as discussões e acabavam com o humor do meu bom amigo L. Não
foram poucas as quartas-feiras em que eu saía de casa prometendo que não
“tumultuaria” o ambiente. Mas aí vinha uma pergunta do tipo “L, por que nós,
presbiterianos, não acreditamos que alguém pode ‘falar em línguas’, se o texto
diz que pode?” ou então “L, se Deus mandou o dilúvio para punir o homem pelos
seus pecados, deixando apenas a família de Noé, por que deixou que nos
reproduzíssemos sabendo que pecaríamos de novo?” E tantas outras perguntas
complexas e que não caberiam em apenas 2 ou 3 horas de estudo. Mas eles tinham
muita paciência comigo. Muita...
Um dos dias mais tensos foi exatamente
após as sessões de oração na minha casa e a afirmação de que L estaria curada.
E, logo, em seguida veio outra crise, achei uma faca sob o travesseiro e me
desesperei. E passei 45 minutos sem dizer uma só palavra naquela quarta-feira
junto com o grupo de estudos bíblicos. E veio uma pergunta “Nossa, F, você está
tão calado. Que houve/
“que houve? Que houve? Se existe um
Deus, e ele é misericordioso e bom. E se Ele disse ‘tudo o que pedires, em meu
nome, te darei’. E disse que mandou seu filho para aliviar os cansados, então
porquê minha filha passa por isso? Por quê? E pra que essa palhaçada toda? Pra
que estamos aqui orando, estudando e meditando sobre um livro que não diz
absolutamente nada? Que porra é essa, gente? Se alguém é curado: Deus é fiel.
Se não é curado: é um mistério de Deus... Que Deus de amor é esse que não ama
minha família?”
E foram alguns segundos de silencio...
e eles tentaram me acalmar e consolar. E oraram por mim e pela minha família...
Ó... foi importante, viu? Pelo menos me senti muito amado. Aliás, essa Igreja
que eu frequentava, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, demonstrava um amor
imenso pela gente... mais do que muita gente que conheço há décadas, diga-se...
A depressão e toda a luta que travamos
não foi a razão primordial para que eu deixasse de acreditar em Deus, embora eu
tenha questionado como pode haver um Deus (que dizem ser amor) permitindo que
um ser tão jovem, tão frágil, tão indefeso, sentisse tanto ódio à sua própria
vida? E se L tivesse conseguido se jogar do oitavo andar? Como aceitar a ideia
de que o suicida estará condenado a uma eternidade de dores insofismáveis,
desespero e agonia eterna num lago de fogo? Aliás como aceitar a crença de que
esse Deus amoroso e perfeito deixará que um grupo simplesmente pereça enquanto
outro tem um lugar reservado no céu?
Meus questionamentos são antigos e sempre me acompanharam ao longo da vida. Antes mesmo de tudo o que passamos. Portanto, não coloco "na conta" desse monstro minha perda de fé. As raízes são mais profundas e antigas.
Meus questionamentos são antigos e sempre me acompanharam ao longo da vida. Antes mesmo de tudo o que passamos. Portanto, não coloco "na conta" desse monstro minha perda de fé. As raízes são mais profundas e antigas.
Não faz mais sentido pra mim. Não sei, sinceramente, se algum dia fez sentido... Lembro de um espetáculo deprimente, acontecido uns 2 anos antes: um pastor americano veio em uma igreja neopentecostal que frequentamos por alguns meses. Seria um culto de cura e fui para ajudar na organização. Na época não tinha problemas em São Paulo, mas tinha 2 muito sérios: uma prima com câncer e minha sogra há quase 20 anos numa cadeira de rodas e com uma doença que avançava lentamente, mas avançava. E o pastor chamava os fiéis, que subiam ao altar com dores e outros males. E eles diziam que estavam curados. Exceto um, que tentava correr de um lado pro outro, mas dizia "Ainda dói..." E o Pastor americano dizia que era a falta de fé dele... E eu subi no palco, quer dizer, no altar. E pedi orações pelas 2 pessoas que eu amava. E ele disse "Pois Deus pode curá-los mesmo estando em cidades tão longe... Ligue para sua sogra".
"Mas, pastor, passa de meia-noite. É pra ligar?
"Sim, Aleluia (falava em línguas), ligue pra sua sogra e, depois, pra sua prima."
E liguei. "Dona M, calma. Não aconteceu nada. Estou aqui num culto e um pastor vai orar pela sua cura. Vou traduzindo e a senhora vai seguindo o que ele disser, ok?"
E, após algumas orações, ele disse "Levanta e anda". E eu traduzi e minha sogra disse "Não consigo..." "Levanta e anda. Vamos, irmã. Tenha fé. A senhora tem fé?" "Tenho, diga pra ele que tenho. Tenho muita fé. Mas... não consigo..." E isso se repetiu outras 3 vezes. Olhei pro pastor, pros fiéis no palco, nas cadeiras em frente, pro pastor da minha igreja, pro irmão que cuidava do som, baixei os olhos, chorei e saí pensando "Que Deus é esse que permite que façam isso com seu nome?" E quase abandonei a fé. Mas voltei... aceitei o argumento que os homens falham, Deus não (explica isso pra uma criança faminta no Sudão).
E, depois de alguns anos, isso voltou a não fazer sentido ou diferença pra mim.
"Mas, pastor, passa de meia-noite. É pra ligar?
"Sim, Aleluia (falava em línguas), ligue pra sua sogra e, depois, pra sua prima."
E liguei. "Dona M, calma. Não aconteceu nada. Estou aqui num culto e um pastor vai orar pela sua cura. Vou traduzindo e a senhora vai seguindo o que ele disser, ok?"
E, após algumas orações, ele disse "Levanta e anda". E eu traduzi e minha sogra disse "Não consigo..." "Levanta e anda. Vamos, irmã. Tenha fé. A senhora tem fé?" "Tenho, diga pra ele que tenho. Tenho muita fé. Mas... não consigo..." E isso se repetiu outras 3 vezes. Olhei pro pastor, pros fiéis no palco, nas cadeiras em frente, pro pastor da minha igreja, pro irmão que cuidava do som, baixei os olhos, chorei e saí pensando "Que Deus é esse que permite que façam isso com seu nome?" E quase abandonei a fé. Mas voltei... aceitei o argumento que os homens falham, Deus não (explica isso pra uma criança faminta no Sudão).
E, depois de alguns anos, isso voltou a não fazer sentido ou diferença pra mim.
Mas faz pra minha esposa e meus filhos. Assim que voltamos pro Rio, fomos na nossa antiga igreja. Pensamos que seríamos acolhidos com carinho e amor, pois explicamos o que estava acontecendo para o Pastor e para alguns membros. Mas foi uma recepção "fria". Não por parte do pastor titular da igreja, mas dos membros. Pra vocês terem uma ideia, deixamos de frequentar em 2014, os líderes do grupo Jovem, por exemplo (um deles conheço desde a época da escola) sabiam do caso grave de L e nunca ligaram pra saber como estávamos. Ok, uma igreja é feita de tijolos e administrada por seres humanos, mas esses seres poderiam ter levado um pouco mais a sério aquele ensinamento de "amai-vos uns aos outros..."
Depois disso, reencontramos um pastor que gostávamos muito e que estava fundando uma igreja pequena, quase uma pequena família. E nos "encontramos" ali. E participávamos das atividades e nos encontrávamos durante a semana. 6 famílias que trago com carinho. Que nos apoiaram em momentos muito difíceis e que ficarão pra sempre em nossos corações. E eles, principalmente o pastor e sua esposa, tiveram uma enorme paciência comigo, pois pegaram justamente a fase em que estava 'rompendo" com minha fé. Mas minha esposa continua firme com meus filhos. Bom pra eles. E S respeita minha decisão de não ir. Mas, vou te falar uma coisa: não é fácil ser ateu numa família cristã não... Mas vou levando. No início foi mais complicado, verdade. Agora, parece que a família "aceitou melhor" e não me olha mais com aquele olhar de "coitado, vai pro inferno". Tá. fui ácido demais nesse comentário. Admito. Foi mal... Retiro o que disse. Importante é que minha família está feliz com sua comunhão com Deus. E eu sigo feliz, mesmo sem comunhão alguma.
Aliás, L está frequentando uma igreja na Barra da Tijuca. Vai aos cultos nos domingos e participa de um grupo de oração às segundas. Está adorando. Está em paz com Deus e crê que Ele tem um plano para sua vida e para a da nossa família. Aliás, o Dr. T me pediu para evitar falar sobre minha falta de fé com meus filhos. Ele alega que é importante que L tenha uma crença em alguém que possa ajuda-la nesse processo. Abri um sorriso quando ele me disse isso. Afinal, a fé pode funcionar como um grande placebo, fazendo com que o paciente “beba um xarope chamado Deus” que funciona perfeitamente para uns, mas nem tanto para outros.
Depois disso, reencontramos um pastor que gostávamos muito e que estava fundando uma igreja pequena, quase uma pequena família. E nos "encontramos" ali. E participávamos das atividades e nos encontrávamos durante a semana. 6 famílias que trago com carinho. Que nos apoiaram em momentos muito difíceis e que ficarão pra sempre em nossos corações. E eles, principalmente o pastor e sua esposa, tiveram uma enorme paciência comigo, pois pegaram justamente a fase em que estava 'rompendo" com minha fé. Mas minha esposa continua firme com meus filhos. Bom pra eles. E S respeita minha decisão de não ir. Mas, vou te falar uma coisa: não é fácil ser ateu numa família cristã não... Mas vou levando. No início foi mais complicado, verdade. Agora, parece que a família "aceitou melhor" e não me olha mais com aquele olhar de "coitado, vai pro inferno". Tá. fui ácido demais nesse comentário. Admito. Foi mal... Retiro o que disse. Importante é que minha família está feliz com sua comunhão com Deus. E eu sigo feliz, mesmo sem comunhão alguma.
Aliás, L está frequentando uma igreja na Barra da Tijuca. Vai aos cultos nos domingos e participa de um grupo de oração às segundas. Está adorando. Está em paz com Deus e crê que Ele tem um plano para sua vida e para a da nossa família. Aliás, o Dr. T me pediu para evitar falar sobre minha falta de fé com meus filhos. Ele alega que é importante que L tenha uma crença em alguém que possa ajuda-la nesse processo. Abri um sorriso quando ele me disse isso. Afinal, a fé pode funcionar como um grande placebo, fazendo com que o paciente “beba um xarope chamado Deus” que funciona perfeitamente para uns, mas nem tanto para outros.
Tem feito muito bem para minha
princesa. Está feliz e em paz com sua fé... E olha que ela andava meio
desanimada, sem acreditar em nada e buscando outras coisas. Dia desses
perguntou se poderia conhecer um templo budista. S chorou por uns 3 ou 4 dias.
Sério. Chorou porque nossa filha queria ir a um templo budista. Ponderei que, mais cedo ou mais tarde, ela acabaria conhecendo. Então, que eu
levasse... e levei. L não gostou muito, mas ficou feliz por eu ter levado. Abri
um sorriso dizendo que a levaria onde ela quisesse. Sempre. Seja num templo
budista, igreja católica ou qualquer outra religião.
O mais importante é que ela se sinta bem e tranquila com relação a sua fé e com o que acredita ou deixa de acreditar. Jamais a julgaria pelo tipo de livro que lê antes de orar, se é que estará orando. Ninguém deveria julgar seu próximo pela sua fé, mas pelos seus atos e a forma como se relaciona com as outras pessoas. Estar num grupo de jovens que buscam ser felizes, acreditando em Deus, orando pelo grupo e por outras pessoas pode estar fortalecendo sua alma e aumentando sua confiança. É o “xarope” que, tomando regularmente e fortificando-se pode fazer a diferença num dia de chuva, frio de falta de esperança. Fico feliz que ela tenha encontrado um bom caminho e que tenha ajudando-a a lutar esse imenso combate.
Portanto, se a fé pode ajudar no tratamento, deixe. Sigo acreditando no Dr. Prozac, mas respeito demais quem acredita que a fé esteja fazendo a diferença...
O mais importante é que ela se sinta bem e tranquila com relação a sua fé e com o que acredita ou deixa de acreditar. Jamais a julgaria pelo tipo de livro que lê antes de orar, se é que estará orando. Ninguém deveria julgar seu próximo pela sua fé, mas pelos seus atos e a forma como se relaciona com as outras pessoas. Estar num grupo de jovens que buscam ser felizes, acreditando em Deus, orando pelo grupo e por outras pessoas pode estar fortalecendo sua alma e aumentando sua confiança. É o “xarope” que, tomando regularmente e fortificando-se pode fazer a diferença num dia de chuva, frio de falta de esperança. Fico feliz que ela tenha encontrado um bom caminho e que tenha ajudando-a a lutar esse imenso combate.
Portanto, se a fé pode ajudar no tratamento, deixe. Sigo acreditando no Dr. Prozac, mas respeito demais quem acredita que a fé esteja fazendo a diferença...
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