Capítulo 8 - O começo do fim da fé


Capítulo 8 – “Deus, Deus, somos todos ateus. Vamos cortar os cabelos do príncipe e entregá-los para um Deus... Plebeu...”
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Com o tempo minha fé foi diminuindo. Vivia uma intensa “montanha russa” de sentimentos em relação a Deus e a minha fé. Fui católico da infância até o início da minha vida adulta. Após o meu casamento, passei a ir menos vezes a igreja, mas seguia fazendo minhas orações e acreditando firmemente num Deus que nos acolhe e protege. Em 2003, após um encontro de casais, me converti e passei a frequentar a igreja presbiteriana. Foram 13 anos frequentando, lendo, estudando e participando de alguns cursos. Durante um período, frequentei uma igreja neopentecostal e percebi como a interpretação sobre os fatos contidos na Bíblia variam de acordo com a fé de cada um ou de cada denominação.
Tenho um cunhado (tenho vários) que diz que não há espaço para interpretações diferentes da Bíblia. Poucas coisas são tão contraditórias do que essa frase. Afinal, existem 6.789.456 zilhões de denominações diferentes. Cada uma dizendo crer genuinamente e acreditando que Deus lhe salvará. Cada uma seguindo aquilo que acreditam fielmente como sendo verdade ou... enfim...
Ok. Meu objetivo aqui não é influenciá-lo a ter ou perder sua fé.Tampouco quero questionar suas escolhas religiosas ou não. Apenas pontuar como a religião pode influenciar o tratamento e a forma como encarar a depressão. Logo no início, orávamos muito e buscávamos, em Deus, o consolo para nossos corações aflitos e a cura para nossa princesa. Na nossa igreja, os pastores e membros do conselho encaravam como uma doença. Ponto. E, sendo uma doença, poderia sim ter uma intercessão pela oração dos irmãos e um apoio de todo o conselho. Mas seria com tratamento médico adequado e seguindo as medicações que nossa filha ficaria curada. Mas recebemos a mãe de uma amiga da minha filha junto com seus irmãos e algumas pessoas de sua igreja neopentecostal.
Foi um espetáculo estranho, perturbador, difícil de se ver quando você frequenta uma igreja "tradicional". As orações deram lugar a gritos e o choro convulsivo da minha filha. Um dos “irmãos” disse que o diabo estava na minha casa e eles fariam de tudo para que ela estivesse limpa. E oravam (ou gritavam) de cômodo em cômodo, fazendo com que cada pedacinho de nosso apartamento estivesse “abençoado”. Enquanto chorava, minha filha pedia para que parassem e estava muito, mas muito abalada e sentindo-se culpada. Por quê? Não sei. Ela também não sabia. Mas sabia que estava sofrendo. Fui ficando cada vez mais desesperado pensando que aquilo não estava ajudando. Comecei a gritar com eles pedindo para pararem. Dos gritos, passei para ameaças... é... eu cheguei a dizer que “acabaria com aquela sessão na base da porrada!” A mãe da amiga da L acabou me acalmando e jurando que era para o bem da família, que Deus estava no controle e que o espírito Santo estava naquele lugar... ok...
Que Deus era aquele que permitia que minha princesa sofresse desse jeito? Mas minha esposa, apesar de presbiteriana convicta, agarrava-se àquela fé cega que fazia com que acreditasse firmemente que o Espírito Santo expulsaria o demônio que se escondia em algum canto daquele confortável apartamento da vila São Francisco. Ao final, um lanche, sorrisos, coca-cola, suco, salgadinhos, mais sorrisos e parecia que nada acontecera.
Um irmão aproximou-se de mim e disse que eu precisava aumentar minha fé, me entregar verdadeiramente à Deus e crer que o Santo Espírito limparia minha filha dessa doença terrível. Sorri. Um sorriso sincero de quem agradece pelo esforço daquele grupo. Um sorriso meio envergonhado por ter gritado e quase os expulsado meia hora antes. Fizeram uma oração final e perguntaram se poderiam voltar na semana seguinte. Deixei.
Mas não adiantou. A sequência de eventos do sábado seguinte foi muito parecida com tudo o que aconteceu anteriormente. A diferença é que, ao final, a irmã sorriu seu sorriso franco e crente e declarou “sua filha está curada. Sua casa está livre.” Não tive como não lembrar o filme Poltergeist, o fenômeno, lá dos anos 80. Quando uma senhora, médium,  declara “Essa casa está limpa.” Todos sorriem, comemoram, a música aumenta e, no final... Ok, não contarei mais detalhes para não dar spoiller sobre o que acontece nesse bom filme de terror. Mas assim como a casa do Poltergeist não estava limpa (desculpa pelo spoiller caso você não tenha visto o filme), minha filha não estava curada. Aquele grupo não conseguiu expulsar o "diabo da depressão". L não sofre, não sofreu e não sofrerá qualquer problema espiritual. Há claramente uma confusão nesses conceitos. Respeito demais quem crê nesse tipo de influência, mas eu não consigo. Como diria o famoso Padre Quevedo “isso non Ecxiste”. O que há é “o desiquilíbrio dos mediadores químicos e bla, bla, bla...” Mas... 
Pessoas bem intencionadas e que amo insistiam em dizer que o Espírito Santo poderia fazer a diferença. E mais de uma pessoa próxima disse que eu tinha "aberto uma porta por onde o diabo entrou na vida de nossa família". Ou seja, mais culpa foi colocada em meus ombros. Mais noites em que eu acordava, de madrugada, chorando, sozinho buscando respostas e dizendo pra mim mesmo "seu merda. Você deixou satanás entrar em sua família!"
Mas... o tempo foi passando e eu acreditei que a religião faria a diferença
Não fez. Pelo menos pra mim...

Comentários

  1. Respostas
    1. Oi, Carla. Obrigado pelo contato... Vale a pena conversar com alguém próximo sobre o tema... Sempre "brinco" que não quero levar ninguém a abandonar a religião... Apenas questiono se faz realmente a diferença... Não faz pra mim. Pra minha esposa e meus filhos, faz TODA a diferença. É uma decisão muito, mas muito pessoal... espero que você encontre as respostas que procura... bj

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