Capítulo 6 - um mundo doente... continuação


        
        Minha geração é uma geração de pais que precisam se acostumar a observar o que acontece com os filhos buscando entender se o fato de ficar tempo demais no quarto deve-se a timidez ou isolamento. Se as reações intempestivas diante de fatos do dia-a-dia devem-se a rebeldia ou bipolaridade. Se as lágrimas no meio da noite são de medo ou “pedido de socorro”. Não será fácil. Tenho um grande amigo de adolescência que, um dia, sentado na praia enquanto olhávamos nossos filhos brincando, disse que a geração de crianças nascida nesse século é muito, mas muito mais evoluída espiritualmente do que as gerações passadas. Segundo sua crença, são crianças mais inteligentes, com uma missão de evoluírem ainda mais e formarem um mundo novo. Mais conectado sim, mas com profundos sentimentos de respeito ao meio-ambiente e ao próximo.
         Gostaria de acreditar nesse meu amigo, que é uma geração melhor que está crescendo... Juro. Mas como posso acreditar que teremos um mundo melhor e com pessoas melhores, quando vejo outras pessoas chamando os potenciais suicidas de idiotas? Como acreditar que o mundo seguirá evoluindo quando sei que alguém criou uma porra de um desafio cuja última etapa é a morte de alguém? Interessante que sempre defendi a tese que somos muito mais evoluídos hoje do que há 200, 500 anos. Não deixamos mais nossos filhos com dificuldades de locomoção abandonados no meio da floresta como faziam bárbaros europeus ou algumas tribos indígenas. Não rejeitamos crianças com síndrome de Down, pelo contrário, fazemos uma grande campanha para integra-los em escolas e quaisquer outras atividades como se não tivessem qualquer limitação. Mas volto a estaca zero quando vejo o tal “desafio da baleia azul”. Meu coração se aperta, choro escondido no banheiro e volto a acreditar que o ser humano é um projeto que deu errado... Como diz um colega meu “será que dá pra devolver os mundos para os dinossauros?”
          Mas... ok, vai.. sigo pensando que a nova geração será melhor do que a minha. exemplos: na sala de L, vários de seus amigos não querem tirar a habilitação (carta, em São Paulo). Por que? porque beberão nas festas, logo, preferem pegar o UBER. E a minha geração? Tem o aplicativo da lei seca no celular pra saber se tem blitz... Dia desses, atravessando a rua com JL, caminhando na praia, quis aproveitar o sinal fechado e passar fora da faixa "Pai, a faixa é ali na frente..." Fiquei com vergonha e mandei um "Não vi". Fora as vezes que JL e AC me veem beber e disparam "Mamãe que vai dirigir hoje, né?"
          Um detalhe: Não tenho a menor pretensão de provar esse meu conceito. É apenas um achismo baseado no que ouço, vejo e aprendo com eles. É uma geração melhor, que rejeita o bullying na escola, que não entende alguns comentários homofóbicos que ouvem por aí... Mas é uma geração cada vez mais triste, isolada e com tendências suicidas...
         Há poucos dias (esse texto foi escrito em 2016, se não me engano) tivemos um susto. L ligou chorando muito falando que um ex-colega de classe, que mantinha contato com seus amigos, enviou um bilhete para alguns grupos com a frase “valeu, galera, foi bom conhece-los. Adeus”. E sumiu. Seus pais não o encontraram, deixou seu celular em casa e não apareceu. Foi um dia inteiro de aflição. Quando eu soube, chorei. Primeiro porque conhecia M, um menino bonito, com 17 anos e um potencial incrível. Segundo porque ficava imaginando a dor que o  pai estava sentindo. Foi nesse mesmo dia que recebi as primeiras matérias sobre essa tal baleia azul... E as tais tarefas que diziam, no final, que o suicida era um idiota. Ficava me perguntando se um menino como M era idiota. Não. Não era. Minha filha estava fazendo um trabalho com um grupo de sua escola. Era pra fazerem um filme. Era uma comédia. Sei que terminaram as filmagens... Não sei se teve graça. Afinal, todos sofriam pelo sumiço de M. foi então que um outro menino disse que sua ex-namorada tinha cometido suicídio no início do ano... E, mais uma vez, minha tese de que passamos por um problema de proporções maiores do que aparenta se fez presente.
         No início da noite, M apareceu. Estava bem. Confuso, triste e deprimido (provavelmente envergonhado). Durante a tarde, cheguei a dizer pra minha filha que ela podia se acalmar. Suas mensagens soavam mais como um pedido de socorro do que como bilhete de despedida. É nesse momento que muitos pais devem se surpreender e pensar “como não reparei antes?” “como pude ser tão relapso?” calma, pai. Você apenas continuou sendo um ser humano e fazendo o melhor que pode (ou que acredita que possa).
         Afinal, o que anda afligindo tantos esses jovens? Quando comentei com minha mãe, seus ombros caíram como se tivesse colocado uma enorme mala em suas costas. Ela fitou o vazio e fez exatamente essa pergunta “o que está acontecendo com esses adolescentes, filho?” Não sei, mãe. Não tenho a mínima noção. Uma teoria que, às vezes, me pego pensando por aí é a de que o excesso de exposição da vida alheia nas mídias sociais acaba por criar um “modelo de perfeição” que não existe. Mas as pessoas fingem que existe. Daí seus amigos tentam mostrar que suas famílias também são famílias de comerciais de margarina, todos acordando sorrindo de manhã, tomando café juntos e rindo com dentes brancos e suas poses de bem sucedidos. E eis que esse modelo vai se espalhando, se espalhando, se espalhando... E os jovens de carne, osso, vitórias e derrotas não conseguem absorver suas frustrações lá muito bem. E quando pensam que seus pais nem sempre conseguem sentar-se à mesa para um café da manhã, ou que não conseguirão passear na Disney no próximo verão, ou que estão tristes enquanto seus amigos estão “felizes e sorridentes nas mídias sociais” temos um sentimento intenso de “vazio” e frustração que pode levar a tristeza profunda que sentem.
         Essa é uma tese meio clichê. Aliás, nem sei se é realmente uma tese, acho mais que é um daqueles pensamentos em que, ao comentar com alguém, você começa com “sabe, andei pensando...” mas é o que ocorre nesse momento. Aqui, sentado na poltrona de um avião rumo a uma outra cidade. Não me vem mais nada à mente. Apenas que a superexposição é inimiga de uma vida metal saudável. Não que todos os que se mostram (ou fingem que são) felizes estejam errados. Não é isso. Também publico lá minhas fotos com a família, todos sentados à mesa sorrindo como se estivéssemos num comercial. A diferença é que várias vezes L não estava sorrindo. Ou, se estava sorrindo, sei que é um sorriso torto de quem sofria.
         Mas... ainda acredito demais que a geração que. hoje, está entre 0 e 13 anos, virará esse jogo... Pode ser apenas desejo, mas acredito...
        "Somos o futuro da nação
         geração.... FACEBOOK
         geração.... INSTAGRAM
         melhor parar... ficou ruim.... apaga essas últimas linhas, ok?

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