capítulo 6 -um mundo doente... baleia azul


Capítulo 6 – “Nos deram espelhos e vimos um mundo doente”


“Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então
Vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis...
Somos os filhos da revolução
Somos foguetes sem religião
Somos o futuro da nação
Geração coca-cola...”
         Gosto demais da Legião Urbana (se você não reparou, antes de cada capítulo tem um verso de uma música deles). Cantava muito essa música quando eu era adolescente. Pegava uma vassoura e fingia que era minha guitarra enquanto gritava pela casa (nunca consegui cantar de verdade). Às vezes discordava dos meus pais apenas pelo prazer de discordar, afinal, não era possível que pensássemos tão diferente assim.
Era possível. É possível. É natural que seja possível.
Interessante que ouço sempre frases como “No meu tempo os jovens respeitavam os pais.” “No meu tempo os jovens faziam tarefas...” “No meu tempo blá, blá, blá...” Não. Minha geração não respeita os mais velhos. Se fosse verdade, ainda respeitaríamos. Um ou outro poderia respeitar, mas não era um comportamento natural dos jovens “do meu tempo”. Por mais que as pessoas da minha idade insistam nesse papo furado. Dia desses uma colega de um grupo de ex-alunos da minha escola, todos entre 46 e 50 anos disse que “antigamente os pais tinham tempo para seus filhos...” Não tinham. Tento lembrar um único amigo que dissesse que seu pai parava para brincar ou falar sobre o sentido da vida. De maneira geral, não acontecia. Ou seja, essa “culpa” pela falta de tempo é pra lá de relativa. Caso contrário, essa explosão do número de casos de depressão entre adolescentes deveria ter começado lá nos 70 ou 80. E não há estatísticas que mostrem isso.
Mas algo mudou nessa geração atual (absolutamente normal, diga-se de passagem). Além do tradicional conflito de classes e interesses, parece que a geração da L está mais exposta ao lado “mais sombrio das pessoas”. Tudo aquilo que levávamos tempo para descobrir, eles descobrem num único clique. A Internet, tão maravilhosa e cheia de boas surpresas, também abriu uma caixa de ferramentas com maldades inimagináveis.  E olha que não estou falando da deep net ou dos sites mais perversos que escondem na rede. As mídias sociais, tão incríveis para nos conectar com pessoas, empresas, grupos e amigos que não víamos há tempos, também pode expor o bullying, humilhações e agressões. E esse é um perigo real e imediato. Aquilo que somente um grupo fechado tinha acesso, hoje, é compartilhado, compartilhado, compartilhado... E as humilhações aumentam, aumentando as frustrações e... a dor... Da dor para a tristeza. Da tristeza para o isolamento. Do isolamento para a depressão. Da depressão para o vazio completo e absoluto da alma. 
  L, por exemplo, curtia algumas páginas pra lá de absurdas. numa delas, havia um completo manual de como cortar seus pulsos... com direito a fotos, esquema, dicas, ou seja, um tutorial completo. Pra que? Nessa caso, concordava com algumas pessoas próximas e dizia que aquele tipo de página não faria bem pra ela... Ela discordava, fingia que excluía (talvez excluísse mesmo, mas curtindo horas depois) e dizia que não visitaria mais. Mas, ao visitar, com certeza se alimentava com o que há de pior no ser humano. Um absoluto "ladro negro da força" dragando a alegria, a vontade de viver e a "força" de quem enfrenta uma doença tão séria...
         Em 2015 a polícia russa descobriu um grupo que era responsável por um jogo estranho, perturbador, bizarro, maligno: o desafio da baleia azul. Uma série de 50 atividades que o usuário teria que passar como desenhar uma baleia em seu braço usando uma gilete, por exemplo. E a última tarefa, a mais terrível e devastadora: o jovem deveria cometer o suicídio. Nessas ultimas semanas, dezenas e dezenas de artigos foram publicados sobre os porquês dos jovens aderirem a esse tipo de jogo ou atividade. Não sei o porquê. Mas sei que vem se espalhando silenciosamente. Num dos grupos de um aplicativo para celulares (isso, estou falando do whatsap), colegas colocaram uma mensagem que era pra ser engraçada com as 50 atividades para o desafio da Baleia azul. Começava com lavar a louça, capinar um quintal, arrumar a sala e terminava com a frase “não cometer suicídio, seu idiota!”
         Essa é uma das frases que exemplifica um pouco da falta de conhecimento que seus amigos e familiares têm sobre o que leva uma pessoa a desistir da vida. Idiotice? Um ser humano tomado por uma dor tão intensa que faz com ele perca a vontade de olhar o pôr-do-sol, ou que não queria mais sentir cócegas, se emocionar vendo um filme, ler um livro, sentir o prazer imenso de um abraço... Essa pessoa desiste de tudo isso e... torna-se um idiota?
         Não. Não é um idiota.
         Esse mundo está doente. Talvez sempre esteve. Talvez nunca se cure. Talvez se encontre uma cura rápida e indolor para a depressão. Mas tenho uma certeza: outra doença virá. E a culpa sempre será do outro...

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