Capítulo 3 - cortes na alma
Capítulo
3 – “E faz marcas no seu corpo com o seu pequeno canivete...”

Aquele momento em que Dr. P. nos disse
que L se cortava há tempos, nos fez cair num vazio imenso. Foi muito difícil
absorver que nossa filha sofria e não percebemos. Pior. O sofrimento foi
crescendo, mas crescendo tanto, que ela transferiu para o sangue. As “vozes’
foram cruéis e a fizeram ter marcas que a perseguirão para sempre. Sempre que
ela olhar para seus braços e suas pernas, as marcas estarão lá. Não faço a
mínima ideia do que ela pensa ao ver suas cicatrizes, mas gosto de pensar que serão
um aviso de que dá pra sair de qualquer situação limite. É difícil? Muito. É
uma longa maratona, não uma corrida de 100 metros.
Uma coisa que fazíamos diariamente era
olharmos os possíveis esconderijos de objetos cortantes. Debaixo do
travesseiro, fundo da gaveta, ultima prateleira do armário, enfim, vale a pena
checar diariamente se há algo escondido. Cada vez que descobríamos um aparelho de barbear, tesoura, faca, etc.,
chorávamos. Chorávamos muito. Os cortes na L eram apenas físicos. Os cortes em
toda a família eram na alma.
A família inteira sofre quando se tem
alguém tratando uma depressão. Nossos outros filhos ficavam assustados com os
gritos, com o choro, com a falta de vontade dela em fazer algo que, antes,
dava-lhe prazer. Uma vez aconteceu algo que nos assustou: L estava tendo um
crise, chorando, gritando que queria morrer e perguntando a Deus porque a vida
era tão sem sentido. Demoramos a ouvi-la e, quando abrimos a porta de seu
quarto, JL, então com 9 anos, estava passando carinhosamente sua mão sobre seus
cabelos, falava alguma coisa baixinho enquanto lhe fazia os carinhos o oferecia
água.
“calma,
L, vai passar... Calma, calma. Bebe um pouco de água... Calma, pai, ela está
apenas tendo uma crise...”
Peraí! O moleque com apenas 9 anos de
idade estava absolutamente calmo, demonstrando uma tranquilidade de veterano numa
situação de incrível “opressão”. Olhei assustado para S e resolvemos leva-lo ao
psicólogo. Por quê? Porque o “normal” não seria uma criança lidar com tamanha
segurança numa situação dessas. Mas foi normal para ele. AC, a mais nova,
também lida com naturalidade com as crises. Talvez porque sempre falamos com
eles sobre o que estava acontecendo e que L precisaria de muito, mas muito
carinho de toda a família. Não seria fácil lidar com a doença da irmã deles,
mas, certamente, ela se sentiria ainda melhor se tivesse o apoio de todos. E
assim fizemos. Assim ainda fazemos.
Uma coisa que sempre buscamos nesses
últimos anos foi tentar “equilibrar” a atenção que damos aos três. Isso é
difícil. O primeiro impulso numa situação dessas é o de darmos 80% de atenção ao
filho com problema de saúde, deixando 19% para dividirmos com os outros 2 e
apenas 1% para o casal. Nesse ponto, acredito que minha esposa tenha tido maior
dificuldade em dividir esse tempo. Invariavelmente tinha que intervir alertando
para o excesso de atenção dedicada a L.
“amor,
você tem outros 2 filhos... não esqueça disso...”
Aqui vale comentar um acordo que
fizemos: de aceitarmos eventual distancia que pudéssemos ter entre a gente.
Isso é importante. Não dá pra imaginar um casal passando por um pesadelo desses
sem que isso afete sua vida conjugal. Lembre-se do momento em que vocês tiveram
um filho... Tudo mudou, certo? Isso é óbvio. Pois num momento de crise como
esse, é bem comum o casal entrar num labirinto sem fim de culpas, discussões,
mágoas e pedidos de “atenção”.
Tenha paciência. Tente. Respire fundo.
Conversem entre si. Penso que uma separação até pode ser inevitável, mas
talvez, tentar passar por essa luta juntos, possa, no final, fortalecer ainda
mais o casal. Mas é preciso muita paciência, muito amor, muita compreensão...
os problemas se acumularão e terão que ser resolvidos. As contas se acumularão,
as pressões no trabalho, as questões do dia-a-dia, enfim.
Conseguimos. E nos fortalecemos. E
nossa família segue firme... Uma separação nesse momento de dor é uma ferida
que não trazemos nas nossas almas. E me orgulho demais por isso...
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