Capítulo 3 - continuação.... Cortes na alma...
Antes, L tinha crises diariamente, às
vezes, várias vezes ao dia. Depois as crises
foram esporádicas, 1 a cada 60/90 dias. No
momento em que escrevo esse texto, já são mais de 6 meses se crise
(VIVA!!!!!!!!) Uma delas foi muito marcante e muito triste. Ela estava gritando
e chorando muito e acabei ouvindo ao telefone. Estava na rodovia dos
bandeirantes, importante rodovia do interior de São Paulo e estava a 120 quilômetros
por hora. Lembro-me de estar na pista de velocidade, e lembro que parei o carro
no acostamento. Como? Não sei. Só sei que gritava, gritava, gritava... socava o
volante e perguntava “Por que?” Chorava copiosamente e pergunta para Deus “Por
que? Por que? Como faço pra suportar isso?”
Chegando em casa, fui direto para seu
quarto. L estava sentada na cama, chorando. Minha esposa me disse que tinha
trancado a porta escondido a chave.
“eu
quero morrer! Eu não aguento mais. Essa vida é uma merda. Eu não quero mais! Eu
não suporto mais!”
“Por
que, L? Porque você quer desistir?”
“eu
não sei, pai. Mas eu não aguento. Eu vou me matar. Vocês podem esconder as
chaves, podem esconder o que vocês quiserem. Eu vou morrer! Pode não ser hoje.
Mas eu vou me matar!”
“quer
se matar? Você quer acabar com tudo isso?”
“quero.”
“então...
abre a porta, S. abre a porta.”
“que
isso, F?”
“Abre
a porta. Ela não quer morrer? Deixa-a. Ela quer desistir? Deixa ela.”
“Eu
vou me matar!”
“tá
bom. Vai fazer como? Quer se jogar lá do 8º andar? Vamos lá. Eu vou garantir
que você não fique presa na janela.”
“eu
quero morrer, pai”
“entendi
filha. E você vai. MAS EU VOU JUNTO! Já te falei: não vou desistir de você.
Quer desistir? Então eu desisto junto. Quer lutar? Eu luto junto. A decisão é
sua!”
Chorei copiosamente.
“Tá
vendo? Vocês estão sofrendo. E a culpa é minha.”
“Não
filha. Não é sua. Que culpa você tem? Você não tem culpa de nada. Cada risco no
seu braço, cada gota de sangue que pinga dos seus cortes tem a MINHA CULPA. EU
quis vir pra São Paulo. EU quis. Não foi a empresa. Não foi meu chefe. Não foi
o papa. FUI EU! Quer culpar alguém? Culpe a mim, porra!”
Nos abraçamos. Ela dizia que eu não
tinha culpa e que era um ótimo pai.
Nunca chorei tanto na minha vida. Talvez no nascimento da L, mas era um
choro tão bom, mas tão bom... Cada lágrima que brotava era como um açoite que
atingia minha alma e dilacerava a nesga de certeza que eu tinha que ela se
curaria. Foi uma atitude certa? Não creio. Lá no manual de pais cujos filhos
sofrem de depressão, lá na página 124 tem a informação de que você não pode
demonstrar fraqueza diante do seu filho. Você deve tirar forças sabe-se lá de
onde, mostrando-se confiante e tentando tranquiliza-lo.
Mas quem disse que existe manual?
Fiz o que meu coração disse que era pra
ser feito. E funcionou... L se acalmou. Foi apenas mais um dia que ainda dói,
mas ficou lá escondido no canto esquerdo da quinta gaveta da memória... Um dia
será tão distante, que não saberemos o que dissemos um pro outro... E não fará
a menor diferença nas nossas vidas...
S acha que a imagem mais marcante de uma das crises, foi uma noite em que, já no Rio, L gritava novamente que queria morrer. Calmamente entre no quarto e disse "tá bom. Não estamos mais no oitavo andar... Não vai dar pra nos jogarmos daqui. Faz o seguinte: toma sua decisão, faz o que você quer fazer e acaba com sua dor. Em seguida, pegarei meu carro e farei minha parte. Não vou machucar ninguém... jogarei o carro contra um poste ou uma árvore e acabarei com minha vida... pronto. Se você desistir, desisto..."
Se fosse um filme, a câmera afastaria-se lentamente até que o público pudesse ver a cena completa: L de um lado, eu do lado oposto, S ao lado de AC e JL. Todos tristes, olhos cansados, vermelhos de tanto choro e dor... Nossa... Confesso que é um alívio incrível pensar nessa cena e poder pensar: passou!
Numa noite de insônia, escrevi assim:
S acha que a imagem mais marcante de uma das crises, foi uma noite em que, já no Rio, L gritava novamente que queria morrer. Calmamente entre no quarto e disse "tá bom. Não estamos mais no oitavo andar... Não vai dar pra nos jogarmos daqui. Faz o seguinte: toma sua decisão, faz o que você quer fazer e acaba com sua dor. Em seguida, pegarei meu carro e farei minha parte. Não vou machucar ninguém... jogarei o carro contra um poste ou uma árvore e acabarei com minha vida... pronto. Se você desistir, desisto..."
Se fosse um filme, a câmera afastaria-se lentamente até que o público pudesse ver a cena completa: L de um lado, eu do lado oposto, S ao lado de AC e JL. Todos tristes, olhos cansados, vermelhos de tanto choro e dor... Nossa... Confesso que é um alívio incrível pensar nessa cena e poder pensar: passou!
Numa noite de insônia, escrevi assim:
“Dói
Parece uma dor sem fim
Doendo na minha alma
Noite e dia
Dói
Lembro-me das
brincadeiras infantis
Das palavras doces
E sorrisos inocentes
Dói
Parece tão escuro o dia
E as noites
E noites
E noites que não tem mais
fim
Eu já não durmo
Quase não acordo
E finjo que não ligo
Dói
Parece que Deus não está
aqui
Não ouve minhas preces
Nem meu grito
Ou meu pranto
Não seca minhas lágrimas
Não me pega no colo
Não me afaga
Me conforta
Ou fortalece
Me deixou
Sozinho com minha flor
Tão cheia de espinhos
Tão cheia de medos
Tão cheia de remorsos
Dói
Mas sei que a sua dor é
tão mais forte
Dói mais que o meu peito
Sangra pelos seus cortes
Pelas palavras amargas
E pelas lágrimas
E gritos de desespero
Já
Disseram tantas vezes
Que vamos superar
Que teremos dias quentes
E noites de lua e
estrelas
E sorrisos e brilhos nos
olhos
E você,
Acredita?
Então me conta uma
historia
De uma precisa linda que
me conquistou
Com seu olhar
Com seu sorriso
Suas histórias lindas
De príncipes e princesas
Que ficaram perdidas num
reino distante
Perdoa
Minhas dúvidas
Meu medo
Minhas lagrimas
E a voz rouca
Pegue um livro antigo
Abra na primeira pagina
E peça que lhe conte
Mais uma história”
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