Capítulo 2 - Culpa...


Capítulo 2 – "Você culpa seus pais por tudo... Isso é absurdo"
            Afinal, de quem é a culpa por um filho seu estar sofrendo de depressão? Antes. Pensemos em alguma outra doença como uma gripe, por exemplo. De quem é a culpa se seu filho está gripado? Do vírus, claro. Os pais poderiam ter feito algo para evitar? Claro que não. Se seu filho nasce com diabetes ou a desenvolve logo no início da infância? Os pais têm culpa? Se seu filho nasce com uma válvula defeituosa no coração. Os pais têm culpa? Então por que os pais seriam os culpados pela depressão de seus filhos?
            Pois é. Fácil falar. Muito, mas muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito difícil realmente acreditar que você não é culpado pela depressão de seu filho. Mas não é. Ok. Até acredito que alguns pais possam ser responsáveis pela tristeza, pelo sentimento de abandono, por uma série de sentimentos que um filho possa sentir. Mas atribuir aos pais o peso da depressão é um fardo que, muitas vezes, eles não merecem carregar.  
            Mas eu me culpava. Noite e dia. Dia e noite. Durante os 10 dias em que ela ficou internada na ala de segurança de um grande hospital de são Paulo, olhava para seus olhos meio opacos, ora assustados, ora envergonhados e, comigo mesmo, me maltratava me perguntando “Por que eu vim pra São Paulo? Por que fiz isso com minha família?”
            Aqui cabe explicar um pouco melhor. Trabalhei  em uma grande multinacional suíça por 14 anos, entre maio de 1995 e novembro de 2009. Fui seguindo a carreira e tendo algumas oportunidades realmente muito boas. Viajei para lugares incríveis e tive reuniões importantes, com pessoas influentes e em lugares que jamais sonhei que conheceria. Se uma pessoa me dissesse, quando eu tinha 21 anos e andava de ônibus, morando num subúrbio pobre e violento do rio de janeiro, com uma calça surrada e um sapato remendado com fita crepe “meu filho, o vejo de terno e gravata numa reunião na Suíça, falando com outros engravatados e discutindo práticas comerciais de diferentes países...” abriria um sorriso e mandaria na lata “Tio, o que você andou fumando?” Pois essa empresa me ofereceu a chance de mudar-me para São Paulo com S e meus 3 filhos. Aumento de salário, carro melhor, bônus maior... Chance de seguir cada vez mais em frente. Conversamos e chegamos à conclusão de que seria uma ótima oportunidade para toda a família.
            Bom... O início foi difícil. Sempre tive um contato muito próximo com meus amigos e minha família. Estava sempre com meus pais, irmãs, cunhados, sobrinhos, primos... Nossa, como gostamos de dar festas e receber pessoas... Isso mudou em São Paulo. No 1º ano, nossa filha mais velha sofreu muito para fazer amigos. Pensei em desistir. Mas não desistimos. Minha esposa voltou a trabalhar e pensávamos que estávamos indo bem. E estávamos, ora. Acabei demitido da tal multinacional junto com praticamente todo o meu time (Ah! Esses downsizings da vida...) e pensei em voltar para o Rio... Mas esse pensamento durou pouco, afinal, o mercado em São Paulo é maior, com melhores oportunidades e tinha um mundo inteiro pela frente... Estava com 37 anos e muitos planos. Voltei muito rápido para outra grande empresa e a vida seguiu em frente.  Minha esposa continuou trabalhando, compramos nosso apartamento, tínhamos algum dinheiro de reserva e nossos filhos faziam suas amizades na escola. Viajamos para o Rio nos feriados, meus pais vinham nos visitar com frequência, fazíamos churrascos na nossa varanda recebendo novos amigos, frequentávamos uma igreja neopentecostal e gostávamos da vida que levávamos.
            Minha esposa sempre dizia que sua felicidade não era completa porque minha sogra sofria de uma doença terrível chamada “Siringomielia”, que a deixara numa cadeira de rodas por longos 20 anos... Provável que uma das minhas primeiras “brigas” com Deus tenha sido por causa da Dona Maria... Não sei se alguém merecia passar por aquilo, mas ela, definitivamente, não merecia.
            Em maio de 2013, tinha mudado de empresa, estava feliz. Viajava com alguma frequência, mas menos do que nos anos anteriores. Ganhava um salário maior, mais tempo com a família, um carro melhor, meus filhos numa ótima escola, frequentando uma igreja presbiteriana maravilhosa, caramba... Deus é perfeito. A vida é perfeita. Nada pode dar errado!
            Deu.

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