Capítulo 2 - continuação
Deu errado. E aí é que entra
um ponto importante. Afinal eu ou minha esposa temos culpa? Não acho.
Não sou médico. Minha esposa também não. Não entendemos
de depressão, de outras doenças psicossomáticas ou dos males da alma. Sei
apenas que somos casados há mais de 18 anos e temos um ótimo relacionamento.
Perfeito? Claro que não. Eu sou chato pra caramba e, confesso, difícil de lidar
em várias situações... Mas então por que nossa filha estava passando por tudo
aquilo?
Não sei. Demorei uns 3 anos pra realmente acreditar que
não tinha culpa... Ok, vai... Às vezes ainda me vejo chorando no escuro e
sentindo uma pontada de dor... Mas durmo tranquilo. Sempre tentei estar o
máximo possível com meus filhos. Talvez por sempre viajar 2 a 3 semanas da
minha vida, sempre me dedicava a brincar com meus filhos, conversar, ler, ver
filmes e series juntos. Não adianta tentar me chamar para uma atividade num
domingo. Se não puder levar meus filhos, dificilmente aceitarei o convite.
Exceções: compromissos de trabalho e na igreja que frequentava. Minha esposa
raramente viajava e tentava participar o máximo possível das atividades das
crianças. Então...
Será que tivemos culpa?
Minha esposa chegou a ficar bastante abalada e se
perguntando se o fato de sempre ter trabalhado fora seria um dos fatores que
tenha contribuído para a doença da nossa filha. Será? Se fosse assim, teríamos
ainda mais casos do que já temos visto por aí... Além de pensar que, por
consequência, adolescentes cujas mães não trabalham, não teriam depressão. Não
é bem assim...
Na boa? Fizemos o melhor possível. Com nossos erros e
acertos, somos os melhores pais que podemos ser. Tem uma frase besta que sempre
falo (e não sei se copiei de alguém): não existe manual de instruções para ser
pai (ou mãe, ou marido, ou filho...). Não dá pra você consultar o manual na
página 88, paragrafo 5, linha 2 pra saber o que fazer quando seu filho não quer
comer feijão. Você age instintivamente. Ou procura conversar com pais, irmãos,
cinhados, amigos, etc. Mas essa é (mais um clichê) uma verdade incontestável: a
vida não te prepara lá muito bem pro ofício da paternidade. Vamos que vamos,
tentando, buscando, seguindo, sangrando...
Mas e a culpa? Li uns artigos (de novo, não sou médico,
ok?) que diziam que “crianças que tenham tido infecções de repetição durante a
1ª infância tem X vezes mais chances de terem depressão e outras doenças
psicossomáticas, do que crianças que não tenham tido...” Opa. Uma pista. L teve
várias infecções urinárias até os 3 anos. Várias. Parece que o uso de uma
determinada classe de antibióticos pode interferir... Foi isso? Não sei.
Parece que uma paciente que faça uso de hormônios e que
mude drasticamente de dosagem de seu regulador hormonal, passando de uma
subdose para uma superdose, pode ter x vezes mais chances... Opa. Isso
aconteceu. Foi isso? Não sei...
Parece que o “diabo da depressão” pode entrar na sua casa
através que brechas que você vai abrindo com ações no seu dia-a-dia. Um filme
aqui. Uma música acolá. Uma oração que você não tenha feito para repreender uma
investida do inimigo de nossas almas... Foi isso. NÃO. DEFINITIVAMENTE NÃO!
Ah... Realmente ouvi isso de uma pessoa que amo muito, mas que me machucou
demais ao dizer que eu poderia ter deixado o diabo entrar na vida da minha
filha ao ver filmes de terror nas tardes de sábado. Olha... Eu não tenho o
menor direito de criticar sua fé, ok? Não o farei. Se, ao longo das próximas
páginas, eu o ofender religiosamente, de antemão, peço perdão. Releve. Estou
numa fase em que não acredito em Deus ou no diabo. Não acredito na criação do
mundo ou no que diz a Bíblia... Falaremos disso depois...
Afinal, de quem é a culpa pelo vazio que invadiu a alma
da L? Foi minha vontade de crescer na minha carreira, de ter mais conforto,
acumular bens ou realizar MEUS sonhos que deixaram as marcas em seus braços e
pernas? A cor do sangue que escorria de seus braços numa tarde de domingo, é a
mesma cor da vergonha que senti por não perceber seu sofrimento? Hum.... Não. Não entrarei nessa novamente. Não tenho culpa.
Minha esposa não tem culpa. Meus outros filhos não têm culpa. L não tem culpa.
Deus? Pode ser... Durante um tempo o culpei pelo nosso sofrimento. Hoje, não
acredito mais nele, logo, não posso culpar alguém em quem não acredito, certo?
Se você, que está lendo essas linhas mal escritas, está
passando por problemas parecidos com o que passamos, coloque na sua cabeça de
uma vez por todas: VOCÊ NÃO TEM CULPA.
“Mas, F, eu me separei... Causei um mal terrível para
meus filhos...” tá. Então porque os outros também não têm depressão? Vocês se
separaram por n motivos. Acontece.
“Mas, F, eu tenho um negócio e me dediquei a vida inteira
ao trabalho, trabalho, trabalho, não dei atenção para ele (ou ela)”. Tá. Você
fez o que poderia fazer para manter e sustentar sua família. Não se culpe por
isso. Garanto que, se você pesquisar, verá pais que trabalham meio-expediente
cujos filhos sofrem do mesmo mal.
Não faça isso com você mesmo, ok? Pare de perder tempo
procurando porquês e concentre-se no “como sair dessa?” provavelmente você será
muito mais produtivo ao pensar em como apoiar, entender e fazer o melhor
possível pela pessoa que você ama que está passando por essa escuridão do que
tentando entender se Deus, o diabo ou o Papa (coitado do papa, ele é tão simpático)
é o culpado pelo sofrimento de quem você ama. E, lembre-se, sempre haverá
alguém que olhará nos seus olhos e dirá “siga em frente, querido, você não tem
culpa.” Mas seus olhos estarão, lá no fundo, lhe culpando de alguma forma. Ou
não. Lembro de ter ouvido várias bobagens nesses mais de 5 anos. Mas agora,
aqui, na poltrona do avião de onde escrevo essas linhas mal escritas me
pergunto “será que realmente ouvi as pessoas me culpando?”
Não
sei. Pode ser. Quem sabe? Quer dizer... sei... sei sim... eu ouvi... E sofri
mais ainda por ter ouvido de pessoas próximas... Óbvio que não fizeram por mal.
Mas fizeram. E doeu... Foi uma chibatada direta na minha alma e no peito. E
sangrou. Sangrou e deixou marcas profundas... Cicatrizes de uma ferida que está
fechada, mas as marcas estão lá.
Parabéns pela iniciativa .
ResponderExcluirEstou lutando ha dois anos contra essa doença que mesmo estando em uma fase equilibrada me persegue e destruiu minha carreira e meu casamento.
Depressão é incapacitante e nao é frescura .
Tentei suicídio , fui internada e nao consigo explicar com palavras a imensa dor e desespero que me consumiram .
Estou tentando sobreviver apesar da devastação que essa doença causa, mas não me iludo pq meu sorriso e minha alegria de viver nunca mais serão os mesmos.
Calma.... Seu sorriso e sua alegria podem sim voltar a ser sinceros e francos. É uma maratona... uma penosa e longa maratona, cheia de obstáculos e momentos muito dolorosos. Mas dá pra seguir em frente. Não pense que você está sozinha, porque não está! São milhões de pessoas com depressão.... a imensa maioria sentindo-se sozinha... Respira, tenta seguir em frente e fica em paz... Beijo enorme no seu coração... FM
ExcluirEu também sofro de depressao, Stela. Nunca cheguei ao ponto de tentar suicidio, mas sei bem o quão incapacitante essa doença pode ser, e conheço bem o vazio na alma dos períodos de crise. Eu vivo sob medicação há anos, ainda assim tendo algumas recaídas, mas posso te dizer que um dia o sol volta a brilhar. Não perca sua fé. :) é um caminho longo. Inspire, expire, continue.... você consegue ❤️
ResponderExcluirMe encaixo em tudo relatado aqui, porque a gente se culpa ne, essa questão de ter que trabalhar fora foi umas das minhas primeiras culpas, sempre me vinha o mesmo questionamento, e seu eu tivesse ficado em casa com ele, e se eu....... obrigada por compartilhar consoco sua história 😘
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