Capítulo 14- gestão do tempo


“temos nosso próprio tempo... temos nosso próprio tempo...”
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         Sempre tentei administrar o tempo que tenho com meus filhos e com minha esposa. Desde que fui promovido pela 1ª vez, em 1998, que tenho uma rotina de viagens. Já cheguei a ficar 1 ano e meio viajando de segunda a sexta, voltando apenas nos finais de semana. Isso foi entre 2006 e 2007 e, a cada retorno, trazia presentes para L. um dia, com apenas 6 anos, ela chorou porque me viu arrumando as malas.
“não fica assim, bebeja, eu volto logo...”
“não é justo um pai ficar longe de sua filha...”
“é justo sim, filha. É meu trabalho...”
“vou ligar pro seu chefe!
“pode ligar, meu anjo, mas ele falará que preciso viajar. Faz o seguinte, te trago um presente bem bonito.”
“não quero presente. Quero você...”
         Ó... era fácil não. Depois de um diálogo desses, pegar o avião segunda cedo era um martírio. Mas estava tranquilo em relação ao tempo. Por que? Porque, nos dias livres, dedicava 100% de atenção pra eles. E percebi, então, que não era a quantidade de horas que importavam, e sim a qualidade e como você investe esse seu tempo.
         Uma das maiores diversões que tenho até hoje é ir ao cinema. Sou capaz de virar a noite fazendo uma maratona com meus filhos... Séries também... Estreou um filme? Eles já sabem que podem contar comigo. E sempre os levei.. E levava meus sobrinhos (tenho mais de 25 sobrinhos, acredite..) Porque semrpe soube que chegará o dia em que eles não irão mais comigo. Terão suas próprias preferências e companhias e eu ficarei ali, contando com S para tentar ver o maior número possível de filmes. Meus sobrinhos j´não ficam mais esperando o sábado à tarde pra saber qual peça ou filme os levarei... Bateu saudades desse tempo...
         Quando me mudei pra são Paulo, morava bem perto do meu trabalho (apenas 5 km e praticamente nenhum transito). Acabava saindo às 20:00 praticamente todos os dias. Sei que é absurdo, mas as reuniões são intermináveis, os emails se multiplicam mais do que Gremilins depois da meia-noite e não tinha jeito... Mas 20 era meu “limite”, pois tinha que chegar em casa a tempo de ver um episódio de Drake & Josh, uma série adolescente bem bobinha, com L. era sempre uma alegria
“chegou certinho...”
“e eu deixo de ver?”
“você gosta, né, pai?”
“gosto... gosto muito...”
         Aqui era uma meia mentira... o seriado era uma merda? Era. Uma merda. Mas esse momento que tínhamos era especial... o tempo poderia parar em cada um desses momentos... Até um filme chamado Tartaruga Manuelita eu fui com L e seus primos G e L... tortura... E, pra piorar, tentava dormir e ela mandava "acorda, pai, é legal..."
         Quando contava histórias (fazia o mesmo com JL e AC), fazia questão de inventar as vozes, o jeito de falar, de andar dos personagens e transformava Chapeuzinho vermelho numa aventura épica. Anos depois que fui saber que que eu fazia a alegria dos porteiros do meu prédio, pois a cada história eles riam muito... AC gostava da Chapeuzinho e de um livro chamado Sopa de Bruxa. JL gostava mesmo é de uma boa batalha de sabre de luz, com direito a máscara do Vader e eu mandando pra ele
“Obi-Wan lhe disse o que aconteceu com seu pai?”
“sim... você matou meu pai...”
“não, J... eu sou seu pai...” e tirava a máscara e ríamos pra valer...
         Outro momento especial era domingo de tarde, no horário dos jogos do vasco. Coloca o jogo na TV, espalhava as panelinhas, secador de cabelo, pentes e escovas e várias bonecas. Programa completo: fazíamos cabelo, unha, arrumávamos e fazíamos o jantar...  outro momento incrível que me mostram que eu fiz o que pude...
         Até mesmo driblar o ciúme dos irmãos, nós tentamos... deixávamos pequenas lembrancinhas preparadas. Quando vinha visitar e trazia apenas um presente pro recém-nascido, disfarçávamos e dávamos um dos nossos... assim, evitaríamos uma tristeza ou comparação. Não sei se foi certo não, sabe? A vida é cruel às veze e, em varias situações, o outro receberá algo e você não. Sei disso. Talvez tivesse sido melhor deixar a L se virar com seu choro. Mas não fizemos... e tenho certeza que isso não tem nada a ver com o que ela passou.
         Meu intuito em contar essas passagens é apenas para que você perceba que pequenos detalhes podem fazer a diferença para seus filhos. Especialmente se você viaja, trabalha demais, tem uma rotina “pesada” de reuniões intermináveis... amigo, a vida é assim mesmo. Não adianta... a não ser que você esteja infeliz com seu trabalho... aí sim vale a pena repensar seu ritmo e tentar mudar o rumo da sua vida. Mas se você está feliz, relaxa. Entregue-se sim ao seu trabalho, mas tentar chegar em casa a tempo de ler uma história. Ou, sente-se no chão de uma livraria e conte uma história qualquer. Incentive seu pequeno (ou pequena) a ler e curtir histórias... e torne esse hábito um hábito familiar...
         Quem sabe você poderá curtir um momento parecido com o que eu tive o privilégio de curtir: L terminou de ler “Morte e vida Severina” ao meu lado, na praia enquanto eu lia um livro qualquer (acho que era 2001, uma odisseia no espaço, longe de ser um livro qualquer). Ela fechou o livro, olhou para o mar, olhou pra mim e disse
“mano, que livro é esse?”
“gostou?”
“estou me sentindo uma merda, mas adorei.”
“como assim?”
“pai, eu não tenho problema nenhum na minha vida. Esses personagens sim... e eles seguem em frente...”
“ótimo. E o que você vai fazer com isso que você me falou?”
“Eu? Eu vou seguir em frente”...
         E seguiu....

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