capítulo 11- Algumas crises


“quando tudo está perdido, sempre existe um caminho...”
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         Ao longo desses mais de 5 anos, L teve melhoras significativas e quedas vertiginosas. Dividirei mais alguns momentos com vocês. Meu intuito é que vocês percebam que é absolutamente natural essa “montanha-russa” de sentimentos e picos de euforia entremeados com o vale profundo da dor.
         Uma vez, depois de alguns meses sem qualquer crise, recebi uma ligação da Professora L, coordenada da escola (maravilhosa) Alfa Cem. L tinha se trancado no banheiro. Estava demorando. Todos os funcionários, professores, móveis e utensílios da escola sabiam que era uma aluna que precisava ser “vigiada” em momentos de crise. Nesse dia, o funcionário da portaria percebeu a demora. E chamou a coordenadora. Quando chegaram próximo ao banheiro, ouviram o barulho aterrorizante da cuba de vidro indo ao chão... O objetivo de L era quebrar a cuba, pegar um caco de vidro suficientemente grande para cortar seus pulsos. No momento em que segurou o caco, ouviu as batidas. E, de novo, seu instinto falou mais alto e conseguiu parar o que estava fazendo...
         Recebi a ligação. Tive que parar o carro no acostamento da Transolímpica (via relativamente nova que liga a Barra da Tijuca com o restante da zona oeste). E gritei. Justamente quando pensei que estivesse tudo superado, vencido a batalha e enterrado a porra do monstro. Ele mostrou suas garras novamente. E parecia me dizer “viu, otário? Quem disse que eu fui derrotado? Estou aqui. Ao lado da sua filha e pronto para leva-la comigo...” foram alguns minutos (pareciam dias) de agonia. Mas precisei fazer isso. Só assim pude me recompor e chegar na escola como se nada tivesse acontecido.
         Conversei com a coordenadora... “Calma, F, ela está bem melhor.... Calma... foi apenas um imenso susto”
         No mesmo dia consulta com o psiquiatra e, alguns dias depois, falamos com a psicóloga.
         Fui logo dizendo “Dra, L não está bem. Está longe de estar bem. Eu fui iludido por você pelo Dr. T que me disseram que ela estava bem. E não está!”
         “F, posso imaginar a dor que você esta sentindo. E é normal essa sensação de ‘derrota’. Mas... eu lembro quando L veio ao meu consultório pela 1ª vez. Calor de 40 graus, vestindo um casaco grosso e com o capuz cobrindo seu rosto. Ficou sentada no canto da sala. Muda. Apenas balançava o corpo pra frente e pra trás... Já percebeu como ela vem ao colsutório hoje? Roupas ‘normais’. Fala da vida, fala dos planos, reclama de vocês... uma adolescente normal. Com problemas? Claro. Curada? Ainda não... mas pensa em como evoluiu...”
         Dra AP tinha toda razão... Era evidente sua melhora... se compararmos com os olhos vazios, sem vida, então... L tem planos. Faz planos... tem esperança... Tem muuuuuuitos momentos felizes. Alguns tristes, verdade. Mas todos nós temos, não é mesmo?
         Numa outra crise, ela ligou direto para o médico. Ele desmarcou compromissos para atende-la. De novo tínhamos tido meses de calmaria e tranquilidade. Seguimos nossas vidas normalmente, com S visitando seus médicos, meu time cobrindo as cotas, o Vasco perdendo seus jogos... mas Dr T mandou a bomba:
         “olha. Se L não tivesse falado comigo, talvez tivesse conseguido... ela fez planos detalhados de como se suicidaria. Não vou explicar como seria, não vem ao caso. Mas sua filha desistiu. E é isso que importa. L, responda de novo: você pensou na morte, quis morrer ou planejou?”
“Planejei.”
         Foi um choque. Depois de meses... Nesse momento vale ressaltar um ponto: admiro demais a fé de S. continuar acreditando em Deus depois de tantos pesadelos é um desafio. E sua fé é inabalável. Palmas...
         Numa outra ocasião, estávamos em reunião. Coisa rara: ambos fora de casa. Meus pais estavam em minha casa para cuidar dos netos. L despediu-se dizendo que iria à psicóloga. Meu pai não precisaria se preocupar, pois iria caminhando. Tudo normal, certo?
         Errado. L estava numa crise tão grande, mas tão grande, que, se não tivesse conversado com a Dra AP, talvez o tom desse blog fosse bem diferente. As consultas foram todas desmarcadas e AP passou a tarde inteira ao lado de L (pra vocês verem como foi forte a crise).
         S recebeu o telefonema e conseguiu antecipar seu voo e chegar em casa.
Engraçado que, quando voltava a ter dúvidas sobre voltar ou não pra São Paulo, eis que vem uma crise e precisamos de meus pais e de uma cunhada minha.... Agora preciso escolher bem as palavras... Se eu disser que precisei "abrir mão da carreira" por conta da L, o peso da decisão ficaria todo em seus ombros. Não é justo. Até porque no sábado fizemos uma "resenha" ou " churrasco, cerveja e futebol" com meus sobrinhos cunhado e meu pai.E foi bom demais. E não haveria resenha se estivéssemos em São Paulo. Então não posso colocar na conta da L a dúvida de Voltar ou não pra São Paulo...
O roteiro foi mais ou menos o mesmo de outras situações. Recebo a ligação, choro, vou pro banheiro, me olho no espelho, procuro desesperadamente por alguma coisa que não bem o que é, olho pro céu, xingo Deus e digo que "se ele existe, é um sádico que gosta de nos ver sofrer", penso que não merecemos passar por isso, choro mais alto, perco um pouco a noção de tempo/espaço por alguns segundos, depois...Torpor, anestesia geral, pedidos para que todo o vazio que L sente seja transferido pra mim. Aquele sentimento de que "não merecemos passar por isso" volta com imensa dor e força. Realmente acho que não merecemos. Mas será que alguém merece?
Meus pais se surpreenderam. Quando recebi o telefonema e tentei voltar, tive imenso apoio dos meus colegas de trabalho... Consegui voltar durante a madrugada. Quando cheguei em casa, 3 dias antes, meus pais se assustaram. Quando contamos o que tinha acontecido, minha mãe ainda falou “Mas ela estava tão bem...”
         Pois é... por isso é necessário tanto cuidado. Minha filha colocava uma máscara. Sorria, falava pausadamente, era doce e tranquila... Mas, por dentro, sua alma queimava em dúvidas, medo e desespero. Com o tempo, passamos a identificar um pouco melhor seu estado de espírito. Com um olhar, percebemos que, por trás do sorriso torto, há uma lágrima escondida. Mas leva tempo para percebemos isso... E, como diz a música temos (e tínhamos)  todo o tempo do mundo...
As coisas "encaixaram" como um grande quebra-cabeças depois que falamos com Dra AP. Não há fórmula mágica. Não há um anel que eu possa encostar e gritar "super Gêmeos, ativar. Forma de uma cura definitiva..." Não há anel mágico. Não há fórmula secreta. Apenas amor, paciência e fé que, um dia, serão apenas histórias ao redor da mesa...
Foi uma semana intensa e cheia de "reviravoltas". Num instante sorrisos, risos soltos, olhar brilhante e confiante. Num instante apenas, lágrimas, gritos e olhar perdido no horizonte. Descobrimos que os exames da L não foram bons... Hormônios desregulados podem ter contribuído para a piora do quadro depressivo... 
Confesso que me senti cansado (Me sinto cansado/ meu orgulho me deixou cansado/ minha vaidade me deixou... cansado) Muito cansado... parecia que todo o peso desses anos de lutas veio parar, de uma vez só, nas minhas costas.... 
Foi uma semana difícil....
Tentei descansar nesses últimos dias, mas não foi fácil. Quando tudo começou, há quatro anos, sabia que seria difícil e cansativo. Mas não pensava que seria tão difícil. Ninguém consegue "quantificar" o quanto será difícil o sofrimento da família...
Só precisamos, de alguma forma, tentar seguir em frente...
Um passo de cada vez... Um dia após o outro... Um dia de sol........ Só completar qualquer outro clichê barato que você consegue entender (ou imaginar um pouco) o sentimento que passava por mim e minha esposa.... Precisámos ser firmes. Recebi várias mensagens que foram importantes... Me reconfortaram e me deram animo em momentos muito tristes e difíceis... 
É. 
As feridas doem menos quando os amigos estão por perto pra te ajudar a limpar....
(Outro clichê)
Pra fechar o festival de clichês: Dizem que crescer  dói.
Pois eu digo que dói mais alida ser pai de alguém que sofre tanto...

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