Capítulo 1 - continuação (depois da água e de voltar a enxugar as lágrimas)
Capítulo 1 - continuação (depois da água e de voltar a enxugar as lágrimas)
Foi nesse exato momento que
nosso mundo mudou. Nossa vida mudou e, junto, a vida de várias pessoas que
amamos e que nos têm ajudado a suportar essa luta terrível e que, ás vezes,
parece não ter fim. Morávamos no 1º andar de um prédio confortável da Vila São
Francisco, um bairro charmoso e confortável da zona oeste de São Paulo, quase
em Osasco. L subiu até o 8º andar, abriu a janela, olhou para baixo e, sentindo
uma tristeza maior do que qualquer coisa que alguém possa imaginar e um vazio
tão profundo, mas tão profundo que nada, rigorosamente nada fazia o menor
sentido, resolveu se jogar. Alguns acreditam que, nesse momento, a mão de Deus
simplesmente a segurou e não deixou que ela conseguisse jogar seu corpo pela
janela. Pelo contrário, sua blusa ficou presa e, ao ver-se presa no canto da
janela e, avistando a mãe, veio arrependimento, o choro convulsivo e a certeza
de que faria uma “besteira”. Outros acreditam apenas em sorte, acaso, destino
ou... que era pra ser assim. Relaxa. Não julgarei ninguém pelo que acredita ou
deixa de acreditar. Já acreditei fervorosamente que foi Deus que a segurou. Já
acreditei que foi o acaso. Agora? Acredito apenas que minha prin (cesa) não
conseguiu fazer o que tinha planejado. Se tive momentos terríveis, de uma dor
inimaginável desde então, tenho absoluta certeza que a dor seria muito, mas
muito maior se ela tivesse conseguido.
A primeira reação que tive foi ficar ali, olhando pro
nada. Durante algum tempo que não consigo precisar quanto foi, fiquei
absolutamente sem qualquer reação. Cheguei a pensar na estupidez que tinha
cometido ao falar uma frase meio “enviesada” pra S, mas confesso que não
pensava em nada... Ao mesmo tempo em que pensava zilhões de coisas ao mesmo
tempo. Enquanto minha esposa confortava L e tentava entender o que estava
acontecendo, liguei para seu psiquiatra. Lembro-me dele dizer que era para
ficarmos sempre ao lado dela e leva-la imediatamente para seu consultório.
Então as coisas ficaram mais claras. Só então, depois
dele conversar com ela durante mais de uma hora que ele nos chamou e teve a 1ª
de uma série de conversas difíceis. L estava com depressão. Uma depressão
profunda, tão profunda, que fez com que ela quisesse acabar com esse sofrimento
da maneira mais “simples” que ela encontrou. L vinha sentindo esse sentimento
há muito, muito tempo. Seu sofrimento foi aumentando, aumentando, aumentando,
tanto que ela passou a se cortar. Ela usava uma faca, lamina do apontador da
escola, lapiseira, qualquer coisa pontuda em que pudesse se ferir e transferir,
pra aquela dor física, a imensa dor que sentia na alma.
Isso dói.
Ouvir isso dói demais. A pior dor que senti na minha
vida. Uma dor tão forte que é impossível não derramar uma lágrima cada vez que
penso nesse dia.
Estávamos sem chão. Perdidos. Atônitos. Sem saber como
lidar com um fato tão terrível e, ao mesmo tempo, inevitável. Algo precisava
ser feito. O que? Não sabíamos. O médico sabia como lidar com isso e, com um
sorriso franco e tranquilo, nos deixou os mais relaxados possíveis de acordo
com as circunstâncias. Foi então que recebemos um segundo baque: ele achava
que, o ideal, seria leva-la para um hospital para que pudesse fazer uma série
de exames e saber exatamente o que estava acontecendo. Nesse momento outro
caminhão batia nos nossos rostos: nossa princesa ouviu vozes que a mandaram
fazer o que ela tentara fazer. Aliás, essas vozes mandavam ela se cortar, se
esconder, se isolar no banheiro da escola, escrever coisas horríveis que ela
escrevia no diário dela. Das paredes de seu quarto ela via monstros horríveis,
sangue que jorrava da parede e cenas que ela nunca nos contou. O médico sabia.
Posteriormente suas psicólogas souberam, mas nunca soubemos. Talvez tenha sido
melhor assim...
Num único dia descobrimos que nossa filha tinha
depressão, tentara o suicídio, se automutilava há algum tempo, ouvia vozes e
via monstros horríveis em seu quarto. Porra, onde estavam esses pais que não
viam isso? Que porra de pais sem cuidado, sem carinho e que cagam e andam para
seus filhos? Como pode isso?
Aí passamos a ter um sentimento terrível que, hoje,
estamos certos que foi muito injusto o quanto nos infligimos essa “pressão”
terrível em nosso peito: a culpa. Afinal, de quem era a culpa por nossa
princesa estar passando por tudo aquilo?

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